Guilherme Filipe: "Ninguém é intrinsecamente bom e o urbano não escapa"

Professor universitário, investigador, ex-anarquista, ator. Guilherme Filipe, o marido submisso de Joana Santos na novela da SIC <em>Dancin'Days</em>, é, aos 59 anos, um homem apaixonado pela sua arte. Sem complexos, conta como tem sido gravar as cenas de amor.
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Acha que a liderança de Dancin'Days marca um ponto de viragem na guerra das audiências entre a SIC e a TVI?

Podemos fazer muitas leituras, mas a leitura que me interessa é o que andamos a produzir em termos intelectualmente válidos nas televisões para que, de repente, uma novela que tem uma história densa e mexe com conceitos demonstre que há apetência para falar destes assuntos. Nós já tivemos este tipo de histórias, já competimos com as novelas brasileiras, quando as tínhamos em força por cá. Foi com eles que aprendemos muita coisa. De há uns anos a esta parte, a novela baixou em termos de qualidade textual para coisas muito óbvias, muito simplistas e facilmente cansou. Até há pouco tempo, o cidadão comum, no café, dizia: "Eh pá, já não se aguentam as novelas, é sempre a mesma história!" Eu achei curioso, não fiz comentários e pensei 'essa é a regra-base de qualquer novela'. Mas se as pessoas começam já a perceber o osso, isso significa que ninguém lhe pôs carne.

Então qual é a "carne" de Dancin'Days?

É a carne humana, os sentimentos, as situações do quotidiano que podem acontecer com o vizinho do lado, comigo e que, de repente, são colocados de forma muito clara e, ao mesmo tempo, profunda. Eu não preciso de fazer uma tese de doutoramento para escarafunchar num assunto, mas posso pô-lo de determinada maneira para que as pessoas falem dele a seguir.

O Urbano, pelo que pudemos ver até agora, é intrinsecamente bom. É tão bom que até chateia. Ele vai ter espaço para não ser apenas o bonzinho?

Como dizem os brasileiros: "Minha filha, me aguarde!" [risos]. Não há ninguém que seja intrinsecamente bom e o Urbano não escapa. Há pouco tempo estava a gravar uma cena com o Albano [Jerónimo, que dá vida a Duarte Prado de Oliveira, interesse amoroso de Júlia, interpretada por Joana Santos]. São dois rivais mas não são dois galãs. O Urbano é um homem mais velho, tem uma inteligência diferente, e o outro ainda está na parte nova.

Como é o duelo entre estas duas pessoas? Qual é o segredo da história de Dancin'Days?

Tanto quanto sei, a equipa de escrita está a trabalhar no argumento e não no guião original. Ou seja, há liberdade, mas também há responsabilidade. Isto é o que acho curioso nesta novela ser um remake. É uma adaptação linear de uma obra para o nosso tempo. Há coisas muito bem escritas nesta novela. Há cenas que... ufff... [faz pausa para tomar fôlego]... até a nós nos enchem.

Acha que a TVI podia fazer uma novela como esta?

A TVI tem Louco Amor, que é concorrente direta desta.

Mas é na linha daquilo que tem sido feito.

Comparando, tem muito mais coisas em comum, eles sabem disso e a grande competição de Dancin'Days é com Louco Amor. Não é com Doce Tentação nem com Remédio Santo. Doce Tentação é...

Fantasia.

É mais do que fantasia. É outra coisa que eu ainda não percebi bem o que é. Aquilo, do ponto de vista de escrita, é um produto estranho.

O que é que as pessoas lhe dizem na rua sobre o Urbano?

Tudo e mais mais alguma coisa.

Chamam-lhe "banana"?

Também. Banana nem é muito mau [risos]! Já me disseram: "A sua personagem é muito difícil!" Porque não é nada fácil. O mais simples foi uma pessoa que me dizia: "É muito caro ir à sua clínica?" Eu pensei que a pessoa estava a gozar, entrei na contracena e disse: "Os preços não sei, depois tem de passar por lá para a Lúcia lhe explicar." Depois percebi que a pessoa estava a falar a sério. Fiquei muito mal [risos]. Isto é muito bom porque significa que as pessoas aderiram e que a interpretação foi convincente.

Há muitos homens como o Urbano?

Não fiz estatística, mas acredito que sim.

Há amores como aquele que, pelo menos até agora, parece ser incondicional e pessoas dispostas a dar tudo, sobretudo monetariamente, a outra só porque se ama?

Se calhar esse é o lado errado do Urbano. Às vezes, as pessoas jogam o trunfo que têm. E o dinheiro é o trunfo mais fácil. Mas, se calhar, não é o mais correto. Mas aguarde pelas cenas dos próximos capítulos [risos]!

Teve receio que o Urbano se tornasse uma caricatura?

Nunca. Não faz parte do meu feitio caricaturar personagens. Eu não sou aquele tipo de ator que faz os tipões. Isso aprendi com os velhos atores: "Vai ao fio da navalha mas não descambes." Ou seja, nunca puxar o pezinho para o chinelo. Pronto, um chinelo, mas com um saltinho alto [risos]. Eu não sou de exageros. Gosto de conter, gosto de elaborar coisas que sejam plausíveis.

"Não é constrangedor fazer cenas de cama com a Joana Santos. Aquela rapariga é giríssima!"

Como tem sido fazer par romântico com Joana Santos?

É muito bom. A Joana, não sendo a única, é um tipo de pessoa que é humana e não tem a mania que sabe. Está disponível para dialogar. E sofre como os outros, tem consciência e sentido de autocrítica. Isso faz que esteja sempre no fio da navalha, o que é muito bom para qualquer ator. É muito bom trabalhar com esse tipo de pessoas.

Quando têm de fazer cenas de cama, é mais constrangedor para si ou para ela?

A ela, tem que lhe perguntar. Para mim, não, aquela rapariga é giríssima [risos]!

Faz estas cenas sem problemas?

Não, não, que isto não é o Woodstock, não vamos todos nus para o plateau [risos]! O que passa na tela parece uma coisa. Mas parece. Não é. Há um vizinho meu de 13 anos que me pergunta: "Mas vocês beijam-se mesmo a sério? E o que é um beijo técnico?" Há ali um apelo erótico que fomentamos e que as revistas também dão pasto a isso, utilizando, por vezes, histórias da vida privada. Agora, obviamente que a situação é constrangedora, na medida em que são zonas que convocam outras zonas internas. Depois, uma cena é erótica para quem vê. Para nós não é nada! Temos ali uma equipa de não sei quantas pessoas à frente a bisbilhotar, "Olha, abre a luz e tal!" E, de repente, não há concentração possível para haver erotismo. Tem de haver imenso respeito a qualquer nível e a este ainda mais, porque o passo entre o fazer bem e o abuso é de caracol. E isso não beneficia ninguém. Eu não sou puritano, não sou pudico. Cada coisa no seu sítio.

E a exposição do corpo? Incomoda-o?

Eu já passei do prazo [risada]. Sou da geração que ia para o Meco fazer nudismo, não é por aí... Mas não venho para uma rua no meio de Lisboa fazer stripping... Não tenho problemas em expor o corpo em circunstância contextualizada. Obviamente que não vou abrir a camisa para mostrar o peito, porque não tenho nada que apele, a não ser a um gerontófilo, uma coisa qualquer... [risos].

"Nunca me filiei em nenhum partido e já tive solicitações de vários"

Terminou a faculdade em 1975, uma altura conturbada para o país. A que fação política pertencia?

Optei por uma fação muito prática, os anarquistas. Os anarquistas eram impunes a qualquer coisa. Identificava-me com aquela ausência aparente de regras, porque era a fase em que toda a gente militava tipo Sporting e Benfica. E eu gostava de ser do contra. Sempre gostei de pensar pela minha cabeça e sempre tive uma certa dificuldade em entender clubismos, fossem de que espécie fossem. Nunca me filiei em nenhum partido, e já tive solicitações de vários. Não sei porquê, nunca lhes perguntei.

Quais partidos?

PS, Bloco de Esquerda, PSD também... Só do CDS é que nunca ninguém me convidou. Do PSD, trouxeram-me já o papel preenchido. "Gostávamos que entrasse." E eu disse: desculpa lá, não entro. Por uma razão muito simples: eu sou contra a disciplina de voto. Gosto de dizer não e manter o não por estas e aquelas razões.

Foi professor de Inglês e Alemão no secundário. O que acha do estado atual do ensino?

Que há uma grande indefinição ideológica. Penso até que, neste momento, já passámos a fase de fazermos programas ao gosto do aluno e já estamos a fazer programas ao jeito do aluno. O que lhe dá mais jeito? Uma equivalência?

É ator, professor, investigador, está a preparar o doutoramento em Estudos Artísticos. O que lhe dá mais prazer?

Viver! Tudo isso faz parte da vida, são facetas. O que é que você gostava de ser? Não gostava de ser um diamante? Não é pelo valor, é pela capacidade de refletir a luz.

A sua filha, Maria Ana, de 28 anos, também é atriz. Como foi quando ela decidiu seguir a sua profissão?

Não teve problema nenhum. Só lhe disse: tens consciência do que isto é, não tens? Ela começou por Arquitetura e depois disse: "Eu não estou para desenhar casinhas." A figura parental já não é o que era. Às vezes, temos uma certa dificuldade em impor a autoridade. Portanto, tem de ser muito na conversa. O que tenho visto dela, e que me agrada, é perceber que ela sabe muito bem o que está a fazer. Ela foi para o Conservatório com um mês, ao colo. Ia eu armado em pai, com o porta-bebés ao colo, no autocarro e as senhoras a levantarem-se e a darem-me o lugar...

Foi um pai muito à frente para a altura.

Fui o pai que pude ser! Tinha de ser à frente porque não tinha outra hipótese! E o Rui Mendes deu o biberão à minha filha! A minha ligação com o Rui é muito engraçada. Fomos pais no mesmo ano, ele foi meu professor e, de repente, estamos a marcar o exame final e era o Rui com a Maria Ana ao colo e a dar indicações. Isto não acontecia lá fora, só aqui. Alguma vez isto acontecia numa escola em Inglaterra? Isto é muito bom!

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